Saiba por que a afirmação que correr acelera o envelhecimento é falsa na maioria dos casos, o que pode ocorrer com excesso de treinos e como reduzir riscos com hidratação, força e recuperação
Nos últimos meses, um vídeo viral afirmou que a corrida acelera o envelhecimento em até 500%, além de prejudicar colágeno, articulações e hormônios. A mensagem se espalhou rápido, gerando dúvida entre quem corre e quem pensa em começar.
Especialistas ouvidos pela reportagem colocam boa parte dessas alegações como desinformação, mas reconhecem que há situações em que a prática pode trazer problemas, quando feita em excesso ou sem orientação.
As conclusões e dados citados a seguir foram compilados com base em informações divulgadas pelo Portal Drauzio.
Mito: “correr acelera o envelhecimento”
A afirmação de que correr acelera o envelhecimento em 500% não tem respaldo científico, isso é desinformação. Pelo contrário, há estudos que mostram efeitos protetores da corrida sobre marcadores biológicos do envelhecimento.
Um trabalho publicado na PLoS One comparou ultramaratonistas com adultos saudáveis e encontrou telômeros 11% mais longos entre os corredores, o equivalente a cerca de 16 anos a menos de idade biológica, segundo os próprios autores, o que sugere menor envelhecimento celular, não o oposto.
Meia verdade: perda de massa magra e aparência do rosto
É verdade que corredores podem notar o rosto mais fino, mas isso costuma refletir perda de gordura corporal geral, e não um efeito direto da corrida sobre a face. O termo informal usado é runner’s face, que surge quando a reserva de gordura facial diminui.
A corrida por si só não causa perda de massa magra automaticamente. Perda de massa magra costuma ocorrer quando o volume de corrida é alto, ingestão calórica e proteica insuficiente e não há estímulo de força associado, explica o ortopedista Evando Gois. Ou seja, o risco existe em cenários de excesso e falta de suporte nutricional e de treino de força.
Lesões, colágeno e desgaste das articulações, o que é verdade e o que depende
Nem sempre correr gera lesões, e o risco aumenta com erros de treino. Como disse o ortopedista Marco Antonio Pedroni, “O exercício físico deve ser adaptado a cada tipo de pessoa“. Quando o corpo está preparado, a corrida traz saúde e qualidade de vida.
A biomecânica mostra que cargas mecânicas repetidas, dentro de limites adequados, tendem a estimular adaptação de tendões, ligamentos, cartilagem e osso, em vez de “romper colágeno” continuamente. Porém, o excesso é prejudicial, principalmente com o avanço da idade, pois pode sobrecarregar estruturas musculoesqueléticas.
Para quem tem joelhos sadios e não está com sobrepeso, correr recreativamente costuma ser protetor, e não destrutivo. A literatura aponta risco igual ou até menor de osteoartrose em corredores recreativos quando comparados a não corredores.
Ao mesmo tempo, é preciso considerar a carga por passada, porque, como observado pelos especialistas, a cada passada, joelhos, pés e quadris recebem de duas a quatro vezes o peso corporal, então cada pessoa precisa encontrar seu limite e respeitar recuperação e variação de intensidade.
Hormônios, vício em endorfinas e estresse oxidativo
A ideia de que correr gera “vício” em dopamina, serotonina e endorfina é enganosa. Essas substâncias melhoram humor e motivação, e não há evidência de que provoquem um vício fisiológico comum. O termo mais adequado é dependência de exercício, um quadro raro e associado a transtornos alimentares e de imagem.
Evando Gois explica que “Isso acontece quando a pessoa continua treinando mesmo com lesões importantes, perde controle sobre o comportamento e passa a ter prejuízo social e profissional”. Na maioria dos casos, o exercício tem efeito antidepressivo e ansiolítico, com melhora do sono, autoestima e cognição.
Sobre cortisol, a resposta depende da intensidade. Treinos muito intensos elevam significativamente o hormônio, enquanto corridas leves ou moderadas tendem a gerar pouco aumento ou até redução do cortisol após adaptações. Em outras palavras, a corrida não “desregula” o cortisol por si só, a intensidade é determinante.
Quanto aos radicais livres, qualquer exercício acelera a produção dessas moléculas, e, em excesso, isso pode causar estresse oxidativo. No entanto, o treinamento regular estimula mecanismos antioxidantes, enquanto exercícios extenuantes e não habituais são os que mais promovem efeitos prejudiciais, como maior atrofia ou perda de força.
Como correr com segurança e reduzir riscos
Especialistas ressaltam que a maior causa de lesões é o erro de treino, como aumento brusco de volume ou intensidade, falta de supervisão, excesso de provas e ausência de dias de recuperação. Para quem está começando, “Para iniciantes, a maior parte das diretrizes recomenda entre três a quatro treinos por semana“.
Cuidados práticos incluem progressão gradual do volume e intensidade, incorporar treinos de força, garantir ingestão calórica e proteica adequada, hidratar-se e proteger a pele do sol e do frio. Proteção solar, roupas apropriadas e hidratação da pele reduzem riscos estéticos associados à exposição climática.
Em resumo, a afirmação que “correr acelera o envelhecimento” é, em sua maioria, um mito. Há meias verdades e riscos reais quando a corrida é praticada de forma excessiva ou sem preparo, mas com orientação, recuperação e atenção à nutrição, a corrida tende a trazer benefícios à saúde física e mental.