Pesquisa longitudinal de 4 anos com 4.285 crianças sugere que o tipo de uso, e não só o tempo de tela, está associado a maior risco de ideação e comportamento suicida
O debate sobre tempo de tela e saúde mental entre jovens ganhou um novo foco, com evidências de que a forma de uso pode ser tão nociva quanto a duração do acesso.
Um estudo acompanhou crianças por quatro anos para entender se comportamentos compulsivos diante de celulares e videogames antecipam problemas como pensamentos suicidas.
Os achados e as recomendações sobre identificação precoce e intervenções são detalhados a seguir, conforme informação divulgada pelo g1.
O que o estudo mostrou
Os pesquisadores acompanharam 4.285 crianças, com aproximadamente 10 anos de idade, durante quatro anos, e avaliaram anualmente como elas utilizavam dispositivos eletrônicos.
Ao final do período, as crianças que demonstraram comportamento compulsivo, dificuldade de deixar o aparelho de lado e sofrimento ao ficar sem acesso apresentaram duas a três vezes mais risco de desenvolver pensamentos suicidas ou de ferir-se em comparação com as outras crianças.
Entre os jovens que usavam os aparelhos de forma aditiva, quase metade dos entrevistados utilizava os celulares desse modo, 5,1% apresentaram comportamento suicida e 17,9%, ideação suicida.
Os autores destacam que uma trajetória prolongada de uso aditivo das telas precedeu o surgimento de problemas de saúde mental, apontando para a importância de avaliar o tipo de uso, e não apenas o tempo.
Limitações e interpretação dos dados
O estudo é longitudinal, mas não estabelece relação causal definitiva entre uso aditivo das telas e pensamentos suicidas, por isso os resultados exigem cuidado na interpretação.
Ainda assim, o psiquiatra Yunyu Xiao, da Weill Cornell Medical College, afirmou que, em sua avaliação, “esse é o primeiro estudo a identificar que o uso aditivo é mais importante para o risco de suicídio do que o tempo gasto diante das telas”.
Essa observação sugere que políticas focadas apenas em limitar horas de tela podem não ser suficientes para prevenir transtornos mentais em jovens.
Responsabilidade, plataformas e famílias
A identificação do problema como ligada ao uso aditivo das telas coloca não só a responsabilidade nos pais, como também questiona o papel das empresas de tecnologia.
Especialistas afirmam que aparelhos e redes sociais podem estimular o uso compulsivo por meio de mecanismos de recompensa, e que as big techs têm responsabilidade em adotar medidas que não incentivem esse padrão.
Ao mesmo tempo, limitar tempo de tela segue sendo relevante, porque o córtex pré-frontal, área do cérebro ligada ao controle de impulsos, julgamento e tomada de decisão, ainda se desenvolve durante a puberdade.
O que pais e cuidadores podem fazer
Identificar sinais de comportamento aditivo, como dificuldade de largar o aparelho, aumento do impulso para usar e sofrimento sem acesso, é fundamental para buscar ajuda precoce.
O pediatra e sanitarista Daniel Becker afirmou, em entrevista, “Na puberdade, você tem uma reconfiguração cerebral em direção ao cérebro adulto, que é a formação, o amadurecimento do córtex pré-frontal, onde ficam as funções executivas, controle de impulso, planejamento, pensamento crítico, adiamento da gratificação. Todas essas funções que são fundamentais para a vida adulta vão se formando durante a puberdade. Para isso, você precisa dos hormônios desse período, das mudanças metabólicas, mas também das experiências.”
Ele também enfatiza que “o cérebro precisa das experiências no mundo real: do exemplo da vida familiar, do diálogo familiar, da interação social, onde ele vai aprender a brigar, se reconciliar, cooperar, colaborar, resolver conflitos com os amigos, fazer seu dever de casa antes de se divertir, e de jogar a bola, ganhar, perder e conseguir superar, e treinar mais para ganhar na próxima”.
Além de reduzir horas de tela, especialistas recomendam observar o padrão de uso, buscar apoio psicológico ao identificar sinais de adição e envolver a família em atividades presenciais que favoreçam o desenvolvimento do autocontrole.
Se você precisa de ajuda e quer conversar, entre em contato com CVV pelo número 188 ou pelo site https://www.cvv.org.br/, o atendimento funciona 24 horas por dia, todos os dias. Não hesite em buscar atendimento médico e psicológico ou um grupo de apoio.