Uso de anabolizantes muda a laringe, espessa pregas vocais, reduz alcance agudo, pode ser irreversível, saiba em que tempo isso ocorre e quando procurar avaliação médica
O uso de anabolizantes, conhecido na gíria como “bomba”, não altera apenas a musculatura e a aparência, ele age diretamente na laringe e nas cordas vocais, produzindo alterações no timbre e no alcance da voz.
As mudanças podem surgir nas primeiras semanas e, em muitos casos, não voltam ao estado anterior, mesmo após a interrupção do uso, o que preocupa especialistas e fonoaudiólogos.
Nas linhas a seguir, explicamos como esses hormônios atuam nas pregas vocais, por que mulheres correm mais risco de alterações permanentes, em quanto tempo os danos aparecem, e quando procurar avaliação médica, conforme informação divulgada pelo g1.
Como os hormônios atuam na laringe
Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, os anabolizantes androgênicos, que são hormônios sintéticos da testosterona, se ligam a receptores nas pregas vocais e desencadeiam alterações celulares.
Na explicação do endocrinologista André Camara de Oliveira, o estímulo causa “aumento de volume de estruturas da laringe, espessamento das pregas vocais e mudança da vibração da mucosa, alterando o som emitido”, mecanismo semelhante ao da puberdade masculina.
Esses hormônios entram no núcleo das células epiteliais das cordas vocais e aumentam a síntese de proteínas estruturais, provocando maior espessura, rigidez e massa no tecido, com redução da elasticidade pela remodelação do colágeno.
Por que mulheres são mais vulneráveis
A resposta vocal ao uso de anabolizantes é diferente entre homens e mulheres porque as concentrações naturais de testosterona variam muito. Como explica a endocrinologista Lorena Lima Amato, “enquanto homens vivem com 500 a 600 ng/dL de testosterona, mulheres não passam de 100 ng/dL”.
Esse aumento súbito em mulheres, quando expostas a doses suprafisiológicas, torna as alterações vocais mais rápidas e evidentes, com queda abrupta no tom e maior probabilidade de mudanças irreversíveis.
Em homens, as mudanças costumam ser mais sutis, como rouquidão, perda de alcance e sensação de esforço ao falar, enquanto em mulheres o espessamento provoca uma queda de frequência mais perceptível.
Quanto tempo de uso é suficiente para causar danos
O risco não está restrito a ciclos longos. Há relatos de virilização vocal persistente após poucas semanas de uso, e o perigo aumenta com doses maiores, uso contínuo e ciclos repetidos.
A médica entrevistada considera “uso crônico” qualquer período que ultrapasse oito a doze semanas, faixa em que já é possível observar aumento de massa muscular e as primeiras alterações vocais.
Os primeiros sinais podem ser sutis, por exemplo “Sensação de peso na garganta, dificuldade para ter notas mais agudas, rouquidão, instabilidade vocal”, descritos pela endocrinologista. Interromper o uso rapidamente aumenta a chance de evitar danos permanentes.
A voz volta ao normal e quando procurar ajuda
A reversão é incerta e depende da dose, tempo de uso e intensidade das alterações. Conforme a médica, entre todos os efeitos colaterais, a voz é um dos que menos respondem à interrupção da substância, “O cabelo volta a crescer, a acne desaparece, mas a voz não melhora”.
O primeiro passo, e mais importante, é interromper o uso. Depois, é recomendada avaliação com otorrinolaringologista e endocrinologista para exames como videolaringoscopia e estroboscopia, que detectam edema, espessamento e alteração da onda mucosa antes que a lesão seja irreversível.
Fonoaudiologia pode ajudar na adaptação vocal, e cirurgias são uma opção em casos específicos, porém nenhuma intervenção garante retorno total da voz original.
Além do impacto vocal, médicos alertam que o uso de anabolizantes traz riscos gerais à saúde, incluindo doenças cardíacas, infarto e AVC, portanto a alteração da voz costuma ser o sinal mais visível de um problema maior.
Se houver qualquer mudança no timbre, alcance ou esforço para falar, procure um especialista o quanto antes, interrompa o uso da substância e faça os exames indicados para avaliar o grau de alteração nas cordas vocais.